Brasileiros ilegais pensam em se antecipar a ações de Trump e voltar
Com comunidade se ajudando, até crianças sofrem com medo de deportação
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| Indignação. Americanos protestam em Los Angeles contra a eleição de Trump: deportação de imigrantes pode custar bilhões aos cofres públicos - DAVID MCNEW/AFP |
WASHINGTON - Desde a madrugada de quarta-feira um tema tem dominado as conversas entre brasileiros nos Estados Unidos: o medo de Donald Trump cumprir sua promessa de campanha e deportar todos os imigrantes ilegais do país. A procura por advogados, instituições e meios de comunicação direcionados à comunidade cresceu de forma significativa. Há casos de pessoas que estão pensando em se antecipar ao risco e voltar ao Brasil de forma voluntária, enquanto outros relatam problemas na família. Mas lideranças locais pedem calma e apontam caminhos para resolver a questão.
O tema também predomina nos diversos fóruns de debate de brasileiros radicados nos EUA nas redes sociais. Em um grupo no Facebook com 46 mil participantes, a orientação é para que os brasileiros levem uma vida “reservada e discreta”. Há ainda a informação de que Trump deve deportar primeiro imigrantes ilegais condenados, criminosos ou que representem perigo:
— Isso deveria valer sempre, mas agora as pessoas vão tomar mais cuidado. Já vi brasileiro sendo chamado pela polícia por, no fim de semana, fazer churrasco na varanda com bebida, música alta, o que chama a atenção da vizinhança. Temos que ver a tradição deles e saber como nos portar — recomenda Solange Paizante, coordenadora da Mantena, instituição voltada para a ajuda ao imigrante brasileiro nos EUA.
Solange — ainda em processo de legalização — afirma, contudo, que os brasileiros não podem se isolar. Sua organização, por exemplo, está marcando um grande evento sobre migração para o dia 16. Ficar longe dos grupos de apoio aos imigrantes pode piorar a situação da pessoa sem papéis.
— Meu telefone não para de tocar. Tem muita gente dizendo que não está conseguindo dormir, que está pensando em largar tudo e voltar para o Brasil — afirmou Flavia Martins, advogada especializada em questões migratórias em Newark (Nova Jersey). — As decisões com a cabeça quente podem ter muitas consequências: voltar para o país como ilegal faz com que a pessoa fique impedida por até dez anos de voltar aos EUA, além de tornar praticamente impossível conseguir o visto depois.
A advogada lembra que há muita coisa para acontecer até a posse de Trump, no dia 20 de janeiro. Ela acredita, inclusive, que o presidente eleito não fará uma deportação tão grande:
— Li no “Politico” que deportar todos os 11 milhões de imigrantes sem papéis custaria US$ 166 bilhões (R$ 556 bilhões). É muito dinheiro, duvido que o Congresso, mesmo republicano, aprove isso — diz Flavia, levando em conta o impacto da medida na produção americana.
Orientação pelo rádio
Ilma Paixão, da Rede ABR — uma rádio para brasileiros de Framingham, no estado de Massachusetts —, tem usado sua programação para orientar os compatriotas. Mas sabe que é preciso fazer mais:
— Um pastor me ligou pedindo uma comunicação especial para as crianças, pois a filha de um brasileiro na região de Boston não estava querendo ir para a escola, com medo de voltar para casa e não encontrar os pais, que poderiam ser deportados.
Alguns brasileiros tentam passar otimismo. A mineira Patrícia Camilo de Souza, de 40 anos e moradora de Newark, afirma que, com boa assessoria, sempre há uma solução. Nos EUA desde 2005, quando entrou pelo México, chegou a estar na fila da deportação, mas sua advogada conseguiu reverter o processo, e agora ela está na fase final para ganhar o desejado green card:
— Na verdade vim para cá fugindo da violência doméstica do meu ex-marido, um policial civil que atua como pistoleiro. Não tinha como ficar lá. Minha advogada conseguiu mudar essa situação, e agora estou em vias de obter meu asilo — revela Patrícia, que chegou a pensar em arranjar um casamento de fachada com um americano para ficar nos EUA. — Sempre há um caminho para ficar aqui se você está na lei, paga seus impostos e faz um trabalho digno.
O Globo

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